ÓLEO DE CANOLA: Desconstruindo os mitos

Por Leandro Zanutto.

Escrevo esse artigo após anos assistindo a divulgação descuidadada e alarmista sobre o óleo de canola, causando pânico entre seus consumidores. São sempre informações de sites de origem duvidosa e correntes de e-mails sem qualquer fundamento científico para suportar suas alegações.

Em resumo o que esses textos proliferam é a ideia de que não existe diferença entre óleo de canola e veneno ou de que óleo de canola é uma fraude.

Não se levar por textos infundados e tendenciosos, recorrer aos livros de bioquímica e ler artigos científicos publicados em revistas científicas de renome é a única maneira de não cair nas armadilhas dessas lendas urbanas. Infelizmente muitos profissionais de saúde não fazem o dever de casa e acabam divulgando informações erradas sem qualquer critério ou estudo sobre o assunto.

Meu papel aqui não é defender ou condenar o uso do óleo de canola, mas desmistificar o tanto de informações erradas que vêm sendo disseminadas nos últimos anos, em especial no Brasil nas últimas semanas.

Transcrevo a partir deste ponto os mitos que já li a respeito do óleo de canola seguidos de minhas considerações.

Mito #1: “Canola não existe, foi criado por engenharia genética”

Canola vem de “Canadian Oil Low Acid”, também chamado de LEAR: Low Erucic Acid Rapeseed (Semente de Colza de baixo ácido erúcico) e banalizado pelo nome de Canadian Oil ou Canada-olea, encurtado para Can-Oil ou Can-ola. Foi desenvolvido em meados da década de 70 e aqui já se quebra o mito de ser um produto fruto de engenharia genética, quando essa tecnologia ainda nem existia (a primeira planta que foi geneticamente modificada foi o tabaco em 1982).

A semente da Canola foi desenvolvida por uma técnica botânica de cruzamento por seleção natural de plantas da família da mostarda, entre elas a Colza, na Universidade de Manitoba no Canadá. Para o cruzamento escolhe-se plantas de um tipo específico por algumas características peculiares. Através de cruzamentos recorrentes entre as plantas e seus descendentes consegue-se novas plantas com as características desejadas pelo agricultor. Esse processo que pode levar até 10 anos para ser concluído vem dessa técnica que é empregada há milênios pelo homem na agricultura. Foi aperfeiçoada por Luther Burbank em 1920 e não há nenhum alimento atual que não venha desta técnica que não tem qualquer relação com engenharia genética. Até mesmo a natureza realiza um processo similar, sem intervenção humana, através da polinização.

De onde vem toda essa lenda urbana da canola então? A grande controvérsia da canola vem do fato dela ser derivada da Colza. O óleo de colza não refinado foi utilizado por séculos na Europa e na culinária oriental (em especial na China, na Índia e no Japão). Somente na década de 70 é que estudos começaram a correlacionar a fumaça que era emitida por esse óleo quando submetido a altas temperaturas com o desenvolvimento de câncer de pulmão (assim como a aspiração de qualquer fumaça). Ainda na década de 70, estudos feitos em animais com o óleo de colza mostraram que exposição em altas doses e por longo tempo levaram ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Apesar de nunca terem sido feitos estudos controlados com seres humanos, por razões óbvias, governos no mundo inteiro condenaram o uso de óleos ricos em Ácido Erúcico para alimentação humana e animal.

Enquanto a composição do óleo de colza é de até 60% de Ácido Erúcico, o óleo de canola contém apenas traços de ácido erúcico (muito menor que 1%). Tanto é que por muitos anos a canola foi chamada de Colza 00 (ou seja, Colza com 0% de ácido erúcico e 0% glucosinalatos). É daí que vem toda essa confusão. Todas as afirmações que alegam que o óleo de canola faz mal para isso ou para aquilo deturpam o conceito como se óleo de canola e óleo de colza fossem o mesmo produto.

Resumindo: Canola e Colza são plantas diferentes e produzem óleos completamente diferentes e nenhuma das duas são oriundas de engenharia genética.

Consideração aos questionadores que leram além: “Ah mas eu ouvi falar que 80% das sementes de canola hoje em dia são geneticamente modificadas.”. Sim, isso é fato. A engenharia genética veio para ficar e se você está preocupado com isso, o óleo de canola deveria ser sua última atenção pois estamos comendo centenas de alimentos geneticamente modificados há pelo menos 20 anos. Mas como não é o foco aqui discutirmos os prós e os contras dos transgênicos, o fato é que o óleo de canola derivado das sementes de canola orgânica ou canola geneticamente modificada têm exatamente a mesma estrutura. Lembre-se que os genes estão em células e não em moléculas de gordura ou óleo.

Mito #2: “O óleo de canola é a fonte por trás do gás mostarda”

Essa é para dar gargalhada. Gás mostarda ganhou esse nome devido ao cheiro desse gás tóxico ser muito semelhante ao da mostarda. Foi utilizado pela primeira vez na Primeira Guerra Mundial pelos alemães em 1917, cerca de 60 anos antes do aparecimento da Canola, e é produzido a partir da reação do óxido de etileno com dicloreto de enxofre. Não existe qualquer relação entre gás mostarda e óleo de canola ou qualquer outra planta, nem mesmo a mostarda. É constrangedor desbancar um mito tão bobo.

Mito #3: “A doença da vaca louca foi causada por óleo de canola dado a ovelhas”

Eu me pergunto se é falta do que fazer ou muita criatividade para inventar algo assim. Para quem quiser ler a respeito procure sobre Encefalopatia Espongiforme Bovina que vão achar centenas de artigos explicando os possíveis motivos do aparecimento da doença e ainda não se conhece a causa específica. Uma teoria acredita que é uma doença que existe há centenas de anos relatada em textos até mesmo de Hipócrates e talvez causada por um vírus, e outra acredita na mutação do gene PrPc causada pelo tipo de proteínas dadas às vacas em suas rações. Nenhuma das duas condições tem qualquer relação com qualquer tipo de óleo.

Mito #4: “Nenhum inseto chega perto de óleo de canola. É tão tóxico que os insetos morrem em contato com este óleo.”

Esse na verdade é interessante. Pois não é um mito, é verdade! Mas isso acontece com qualquer óleo: azeite de oliva, óleo de girassol, óleo de amêndoas, óleo de linhaça e por aí vai. Isso não acontece por intoxicação, mas por sufocamento do inseto. Não existe nenhuma toxina nesses óleos que mate o inseto. Não passa de uma distorção tendenciosa dos fatos. Muitos pesticidas da agricultura natural são à base de óleo justamente devido a essa propriedade.

Mito #5: “Óleo de canola tem sido utilizado para fins industriais para fabricar sabonetes, tintas, lubrificantes e biocombustível”

Poderíamos juntar esse mito, que não é um mito, com o #4 pelo mesmo motivo: QUALQUER óleo, até mesmo o azeite de oliva, pode ser utilizado para fabricar esses produtos. Isso não quer dizer que o óleo é nocivo à sua saúde. O interessante é ver que os mesmos “cientistas de Internet” que acusam o óleo de canola de ser utilizado para fins industriais recomendam o uso de óleo de linhaça. Antes de a linhaça tornar-se essa panacéia atual, seu óleo foi utilizado por décadas na fabricação de tintas e massa de vidraceiro (sim, aquela massa cinza utilizada na fixação de vidros nas janelas) mas ninguém vê a linhaça sendo condenada por causa disso.

Mito #6: “Óleo de canola é gordura trans e tem ligação direta com o câncer”

Não precisa entender muito de química para saber que óleo de canola não tem gorduras trans. Gordura trans é caracterizada por configurações do tipo trans entre dois átomos de carbono na cadeia de hidrocarbonos da molécula. O óleo de canola, assim como outros óleos saudáveis, é um coquetel de diversos tipos de ácidos graxos com configurações cis, sendo composto 60% de gorduras monoinsaturadas (ácido oléico – o mesmo do azeite), 22% de ômega 6 (ácido linoléico), 11% de Ômega 3 (ácido alfa-linolênico) e 7% de gorduras saturadas (assim como qualquer outro óleo vegetal). Não existe sequer qualquer resquício de gorduras trans nele.

Mito #7: “Óleo de Canola foi banido da Europa na década de 90”

Nunca foi em momento algum. O fato é que lá não se usa o termo “Óleo de Canola” e sim o nome que tradicionalmente sempre foi utilizado na Europa: “Óleo de Colza” que nada mais é que o “Óleo de Canola” visto que em toda Europa é proibido o uso de óleos ricos em ácido erúcico. A única diferença é que na Europa os agricultores pequenos são protegidos por legislação e plantam as sementes de canola que não são geneticamente modificadas. Mas como já explicado, com sementes geneticamente modificadas ou não, o óleo resultante do produto é o mesmo. A modificação genética aplicada na semente é em uma proteína que é 100% removida na extração do óleo.

Em suma, não estou defendendo que o óleo de canola seja benéfico ou maléfico para saúde. Apesar de diversos estudos mostrarem que a alta presença no óleo de canola de ácidos graxos monoinsaturados e Ômega 3 do tipo ALA trazem benefícios para saúde cardiovascular, eu particularmente discordo que esses ácidos graxos tenham esse poder. Mas isso é assunto pra outro artigo. Meu intuito neste artigo é simplesmente mostrar que o óleo de canola não traz qualquer perigo à saúde conforme estão alarmando. Ele já passou por diversos testes clínicos nos últimos 30 anos e é aceito como seguro pelos órgãos sanitários mais rigorosos do mundo como na Inglaterra, França e Alemanha.

Eu tenho consciência de que esse artigo não tomará as dimensões proliferatórias dos e-mails e sites fatalistas, pois afinal a verdade é entediante. É muito mais divertido acreditar em teorias da conspiração e histórias assustadoras e eles sempre vendem pauta enquanto a realidade rende notas de rodapé. Somente espero que os profissionais de saúde que tiverem a paciência de ler esse texto até o final, tenham o mínimo de critério antes de divulgar qualquer lenda urbana como essa para seus pacientes. Não leve esse texto como a verdade, apenas como um motivo para não acreditar na primeira coisa que ler. Ainda se tiver tempo, faça melhor: desconfie de cada palavra desse artigo, busque os estudos científicos em revistas conceituadas, tire a poeira dos seus livros de bioquímica e levante suas próprias conclusões.

O fanatismo nasce na sombra do conhecimento e na luz das meias verdades.