Limpeza da Vesícula e do Fígado: Mito ou Verdade?

Por Leandro Zanutto

Há dois dias recebi um e-mail de um amigo solicitando minha opinião sobre um tratamento que uma clínica vem aplicando com seus pacientes e se ele deveria seguir tal procedimento a qual chamam de “Limpeza da Vesícula e do Fígado”. Alguns funcionários da minha equipe clínica já tinham vindo me relatar de alguns pacientes que vinham adotando tal procedimento e nunca dei muita bola por me parecer besteira. Mas como esse assunto tem se tornado recorrente, fui atrás de entender do que se trata. Li alguns blogs, assisti alguns vídeos e me surpreendi com a quantidade de depoimentos de pacientes e profissionais de saúde maravilhados com os resultados impressionantes das “pedras verdes e marrons” que são excretadas pelas fezes após 7 dias de uma dieta que culmina em 1 dia de ingestão exclusiva de suco de maçã ou de limão, sulfato de magnésio e azeite.

Meu primeiro estranhamento foi que a quantidade de cálculos que alegam ter expelido chega em alguns casos há mais de 400 e com um tamanho considerável: pouco maiores que uma ervilha cada um! A partir daí já se pode saber que não tem como ser cálculo na vesícula: você precisaria de uma vesícula muito grande, vou chutar aqui, do tamanho de uma bola de Vôlei, para guardar tantos cálculos, sendo que sua vesícula biliar comporta em média o volume máximo de 2 copinhos de café. Em alguns depoimentos os pacientes ainda falam: “essa é a terceira vez que eu faço o procedimento de limpeza e somando todos os cálculos eu já expeli quase 1000 pedrinhas”, como se cálculos biliares fossem formados numa velocidade tão grande. Outro fator que chama a atenção é que essas pedrinhas boiam na água da privada: algo que não ocorre com os cálculos biliares, pois estes são mais densos que a água devido à alta presença de cálcio e colesterol.

Então, de onde vem essas pedrinhas verdes e marrons? Bem, eu imagino que elas não são nada mais que fezes de uma dieta incomum: uma dieta a base de uma quantidade enorme de azeite, suco de maçã ou de limão e sulfato de magnésio. Essas pedrinhas são provavelmente apenas um produto da saponificação de óleos que acontece diariamente em nosso intestino, mas acabam não sendo facilmente visíveis nas fezes justamente por ninguém tomar 1 xícara de azeite no café-da-manhã. Saponificação é o processo pelo qual se faz, por exemplo, as pedras de sabão. Para que essa saponificação ocorra, é necessário que aconteçam algumas reações químicas com substâncias alcalinas que estão presentes em alta quantidade no intestino humano, como os sucos biliares e pancreáticos. Mas esta reação pode ser potencializada ainda mais pelo sulfato de magnésio que é levemente alcalino mas em nosso organismo é facilmente convertido em hidróxido de magnésio, este sim altamente alcalino.

Outra possível explicação, mas talvez menos provável, seria a formação de complexos insolúveis de colesterol ligado a esteróis que são também comumente excretados pelas fezes cotidianamente. A bile é basicamente composta de colesterol que se liga muito facilmente a esteróis presentes em várias plantas, inclusive no azeite de oliva, no limão e na maçã. É essa reação química que faz com que vários alimentos tenham esse efeito de melhorar o perfil de colesterol sanguíneo: como a ligação entre colesterol e esteróis é muito forte e são moléculas que não são absorvidas no intestino elas são excretadas pelas fezes. Sem a reabsorção da bile no intestino, o fígado é forçado a produzir mais bile e a matéria prima para isso é o colesterol, baixando assim o perfil lipídico na corrente sanguínea.

Portanto, você pode fazer essa tal limpeza 1, 2, 3, 50 vezes e você continuará excretando as tais pedrinhas, mas isso apenas significa que você está excretando aquilo que você ingeriu e não pedras da sua vesícula.

Vamos então para alguns pontos rápidos:

1) Sua vesícula biliar não comporta um volume de pedras tão grandes em seu interior.

2) Cálculos biliares afundam na água, não boiam na água como as ditas pedras expelidas pelo intestino.

3) Cálculos biliares podem sim ser raramente excretados pela vesícula biliar ou pelo duto biliar. Porém eles precisam ser muito pequenos, menor que 5mm, e ainda assim existe um grande risco de entupimento do duto que leva a processos inflamatórios graves como a pancreatite. Portanto cálculos grandes costumam ser menos perigosos do que cálculos pequenos pois é muito improvável que eles consigam passar pelo canal.

4) Em vários blogs e vídeos de defensores desta limpeza, os mesmos alegam que o ácido málico da maçã dissolve os cálculos biliares e que isso foi publicado na respeitada revista científica Lancet, em 1999. Isso me chamou atenção, pois sou assinante da Lancet e fui atrás de tal artigo. Na verdade, não é um artigo mas sim uma carta de um assinante ao editor da revista relatando que sua esposa expeliu umas bolinhas verdes e marrons após a ingestão de uma grande quantidade de suco de maçã e um copo de azeite de oliva. Portanto, não se trata de um artigo científico, mas de um relato de um assinante. O pessoal referencia a revista e não se dão nem ao trabalho de ler sobre o que se trata. Só saem replicando informações de fontes duvidosas. Mas ainda assim, vamos pensar na anatomia do nosso sistema digestivo: os cálculos quando presentes ficam alojados no interior da vesícula biliar. E nós temos um esfíncter, que é uma espécie de músculo, que impede qualquer substância do intestino de voltar para a vesícula biliar ou para o duto biliar. As medicações a base de sais biliares que são utilizadas na diluição de alguns tipos destes cálculos atuam primeiro sendo absorvidas para a corrente sanguínea para serem metabolizadas no fígado e aí então chegar à vesícula biliar. E o tratamento dessas medicações normalmente correm por meses a fio.

5) Por fim muitas das pessoas que experimentaram este método relatam uma leveza, uma maior disposição e até melhoria de marcadores sanguíneos depois de seguirem tal procedimento como se uma limpeza profunda de todo o seu organismo tivesse ocorrido. Bem, não tem nada a ver com excreção dessas pedras, mas sim com toda a mudança de hábito alimentar que adotam 1 semana antes de iniciarem esses procedimentos além do longo jejum que praticam no dia do procedimento, benefício também observado por diversas pessoas que fazem jejuns prolongados por motivos religiosos: “uma clareza mental, uma leveza, uma disposição, um bem-estar, uma conexão com a espiritualidade.”. Isso ocorre por diversas reações químicas que já foram estudadas em pessoas que realizam jejuns que estão relacionados a diversas alterações hormonais de sobrevivência provocados pelo jejum prolongado, como no GH, hormônios da glândula adrenal, pituitária e até no sistema imunitário.

Não estou dizendo aqui que seja impossível você se livrar de cálculos biliares por um processo como esse. Mas provavelmente não seria nada diferente de uma dieta mais rica em gordura que igualmente poderia estimular a contração da sua vesícula biliar por intermédio do hormônio colecistoquinina no seu intestino, o que poderia eventualmente expelir cálculos muito pequenos. Mas ainda assim, seria bastante difícil você identificá-los em suas fezes pelo pequeno tamanho e pequeno número.

Mas por que tantos profissionais de saúde, alguns bastante conhecidos na mídia, defendem esses tipos de alegações? Bem, infelizmente, isso é algo recorrente em qualquer profissão, principalmente naquelas onde se usam marcadores indiretos, como métodos estatísticos correlacionais, o que leva muitos profissionais a gerar alegações inverídicas e enveredar para métodos pseudocientíficos com análises estatísticas inadequadas. O que falta em muitos profissionais é a falta de interesse por estudar o básico de bioquímica e anatomia, ir na fonte. Muitos tentam buscar atalhos, caminhos mágicos e muitas vezes tomam a ciência como perversa manipulada por grandes corporações farmacêuticas. Não que isso não exista, mas nem por isso vamos negar a ciência e voltar aos tempos da bruxaria, alquimia, esoterismo e misticismo. Eu já tive a oportunidade de participar da organização de congressos, seminários e cursos de certificação na área de saúde. No último eu me espantei com um e-mail de uma médica que estava muito revoltada com a prova que havia sido aplicada ao final do curso que estava cobrando conceitos básicos de bioquímica e segundo ela, médicos não têm a obrigação de conhecer bioquímica. Foi muito triste ver que uma pessoa com diploma para exercer essa nobre profissão pense assim, afinal a prescrição da maioria dos tratamentos médicos exige conhecimento da bioquímica por traz dos compostos que estão sendo propostos no tratamento.

Portanto se você é um paciente que foi diagnosticado com cálculos na vesícula a partir de uma ultrassonografia e quer se submeter a esse procedimento de “limpeza” para ver no que dá, provavelmente vai só perder seu tempo. Mas antes de sair divulgando que resolveu seu problema, repita a ultrassonografia para verificar se esses cálculos foram realmente expelidos. O mais importante é: procure um médico especialista, neste caso um gastroenterologista para avaliar se no seu caso é necessária cirurgia ou não. Em grande parte dos casos a cirurgia é desnecessária e não há nada o que você possa fazer para tirar o cálculo de lá, mas também você conviverá provavelmente bem por toda sua vida com este cálculo.

O mais importante é adotar um estilo de vida que previna a formação de novos cálculos, lembrando que o que mais propicia a formação deles são os fatores de risco como obesidade, diabetes, terapia hormonal à base de alguns hormônios estrogênios e hábitos alimentares inadequados, normalmente pobre em fibras fermentáveis e desbalanceados em gorduras.