CONTROLE HORMONAL PELA ALIMENTAÇÃO

Entrevista publicada pelo Jornal Lotus Bem-Estar, em 31/08/2011.

Entenda os complicados mecanismos hormonais por trás dos alimentos e como eles fazem parte da dieta que está se tornando uma tendência mundial entre atletas olímpicos e nos tratamentos mais avançados de doenças crônicas como a obesidade e diabetes. Nosso entrevistado é o especialista em engenharia biomédica Leandro Zanutto que há uma década se dedica a pesquisas na área de Alimentação e Bioquímica. Atualmente Leandro está ligado ao Mestrado em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília e coordena um programa de reeducação alimentar com enfoque em equilíbrio hormonal desenvolvido no Brasil.

Leandro, o que são os hormônios e qual a sua importância? “Hormônios são estruturas bioquímicas responsáveis pela regulação das funções orgânicas e comunicação entre as células e órgãos dos seres vivos. Toda função do nosso corpo é controlada por hormônios: da reprodução ao envelhecimento. Se esses hormônios estiverem em frequente desequilíbrio haverá um processo de má regulação destas funções e consequente distúrbio da saúde.”

E qual a relação entre os alimentos e os hormônios? “Toda vez que comemos, nosso corpo reage liberando hormônios em proporções que podem estar em equilíbrio ou não. Tudo depende da combinação entre Proteínas, Carboidratos e Ácidos Graxos (gorduras e óleos) em nosso prato. Um exemplo simples de como os alimentos interferem em nossos hormônios é o estímulo de Insulina ao consumirmos carboidratos (como massas, grãos, doces, frutas e legumes). A glicose destes alimentos é a principal fonte de energia para nossas células, porém uma alta concentração no sangue traz diversos problemas para a saúde. Para não deixar que os níveis de glicose se elevem muito, a Insulina entra em ação sinalizando diversas células a retirar glicose do sangue. Mas a glicose também não pode ficar em níveis muito baixos. E é por isso que produzimos um hormônio antagônico à Insulina, o Glucagon, que sinaliza as células do fígado a reporem a glicose ao sangue quando seus níveis ficam muito baixos. O desequilíbrio diário e ao longo de alguns anos entre Insulina e Glucagon é considerado a principal causa no crescente quadro de Obesidade e Diabetes Mellitus tipo 2 no mundo. A parte boa é que podemos ter controle disso: o Glucagon também é estimulado pelos alimentos através do aminoácido Glicina das proteínas (como carnes, laticínios, ovos e soja). Com um balanço saudável entre proteínas e carboidratos em cada refeição e lanche do seu dia, o seu organismo manterá os níveis de Insulina e Glucagon equilibrados, auxiliando não só no combate à Obesidade e ao Diabetes como diversos outros fatores que impactam diretamente na nossa qualidade de vida. Temos inclusive mais de 20 atletas medalhistas de ouro nas Olimpíadas que se alimentam sob essa perspectiva e o número de desportistas procurando esse equilíbrio hormonal cresce a cada dia.”

Como podemos então combinar os alimentos para atingir esse equilíbrio hormonal? Utiliza-se algum medicamento? “As primeiras pesquisas sob essa perspectiva foram realizadas pelo bioquímico Barry Sears, renomado cientista por seu trabalho no desenvolvimento de fosfolipídios patenteáveis para tratamento de doenças cardiovasculares. O próprio AZT utilizado no tratamento da AIDS utiliza seus fosfolipídios. Em 1984, Dr. Sears passou a utilizar os mesmos princípios bioquímicos do funcionamento dos medicamentos para induzir hormônios através dos alimentos. Ele encarou os alimentos literalmente como medicamentos com doses e combinações específicas para cada indivíduo de acordo com suas peculiaridades. Atualmente Dr. Sears tem equipes que o representam em vários países realizando pesquisas e adaptando essa perspectiva alimentar para o perfil populacional e alimentar de cada local. No Brasil, nossa equipe já realiza esse trabalho desde 2004. O princípio básico para se atingir esse equilíbrio hormonal é combinar alimentos dos grupos de Proteínas, Carboidratos e Ácidos Graxos em quantidades específicas a cada indivíduo. Para facilitar, criamos um programa de reeducação alimentar que ensina a pessoa a fazer esse balanço sem depender de cardápios, combinando os alimentos que já gosta e tem hábito de consumir.”

Existem restrições? “Como toda dieta equilibrada, restrições se aplicam. Apesar de vivermos no Século 21, nossos genes ainda estão na Idade da Pedra. Nosso corpo se moldou a reagir aos alimentos que consumimos nos últimos milhares de anos, mas num período muito curto da nossa evolução foram incluídos em nossa dieta diversos ingredientes. Alguns deles ativam respostas hormonais exageradas e acaba se tornando difícil o contrabalanço, mesmo com uma alimentação aparentemente saudável.”

Você poderia citar algum exemplo? “Existem muitos como, por exemplo, os adoçantes artificiais (aspartame, ciclamato, sucralose, etc) que apesar de não conterem açúcar induzem a liberação de insulina além de aumentar a resistência a este hormônio. Mas o ingrediente mais prejudicial é proveniente do Ômega-6 presente em diversos alimentos, principalmente nos óleos vegetais de grãos e sementes (óleo de soja, milho, girassol, algodão, etc), na gema do ovo e em carnes muito gordurosas. Esses alimentos possuem uma gordura poli-insaturada chamada de Ácido Araquidônico (AA), que em alta concentração no sangue torna-se letal.”

Mas as gorduras animais não são piores que as vegetais? “Não necessariamente. Realmente existem gorduras vegetais excelentes como é o caso do azeite de oliva e dos óleos presentes em castanhas e amêndoas. Elas possuem baixo teor de gorduras poli-insaturadas e alto teor e gorduras monoinsaturadas de cadeia longa. Mas não pode se generalizar um conceito de que toda gordura vegetal é igual. Existe uma variedade enorme de gorduras no reino vegetal e animal. E nem toda gordura animal faz mal. Na realidade a chance de você apresentar problemas de saúde por alto consumo de alguns tipos de óleo vegetal, é maior que o consumo elevado de gorduras animais. Os primeiros estudos com esse indicativo são da década de 70, com coelhos e ratos adultos em laboratórios nas Universidades Thomas Jefferson e Califórnia. Descobriu-se que a injeção na corrente sanguínea de altas doses de gorduras saturadas e até de colesterol (que só existe no reino animal) não causaram quaisquer danos aos órgãos dos animais. Mas a injeção de doses similares de AA em suas veias, causou morte dos animais em menos de 3 minutos vítimas de trombose aguda que os levaram a embolia pulmonar, derrame e trombose coronariana. O motivo é que o AA é precursor do grupo de hormônios Prostaglandinas de série 2 (PG2) que ativam nossas respostas inflamatórias, incluindo a agregação de plaquetas e assim facilitando maior propensão à formação de trombos. Já o uso diário de Ômega-3 de peixe, que é uma gordura animal, causa um efeito contrário ao do AA, pois o EPA (Ácido Eicosapentaenóico) presente neste óleo é precursor do grupo de hormônios antagônicos às PG2 conhecidas como Prostaglandinas de série 3 (PG3), com ação anti-inflamatória, e outros ainda mais poderosos, recém descobertos, as Resolvinas, com ação regenerativa. Medicações como o Ibuprofeno e a Aspirina também atuam inibindo as enzimas que realizam a conversão de AA em PG2. É por isso que normalmente são prescritas doses diárias de AAS para pacientes que recentemente sofreram problemas cardíacos relacionados a uma trombose. Porém essas mesmas medicações também diminuem a síntese de PG3 e Resolvinas. Portanto, a maneira mais saudável e eficaz de se combater esse processo é a prevenção pela alimentação para manter os níveis hormonais em uma zona de equilíbrio.”